Quando penso na Escadaria Maria Ortiz, que agora completa cem anos, sinto que ela me olha como um espelho. Em 1924, Florentino Avidos entregava à cidade não apenas um acesso entre a Cidade Alta e o Porto, mas um monumento de granito que carregava a promessa de futuro. Eu me impressiono com essa visão de longo prazo. Ele pensava em décadas, não em curtidas. Onde tocava, surgia infraestrutura que ainda hoje sustenta nossa vida cotidiana.
Jornalista Lauro Nunes

O Choque com o Presente
E aí eu olho para o que vivemos hoje. Vejo gestores que parecem ter trocado a prancheta pelo microfone, o planejamento pela encenação. É como se a função de governar tivesse virado um espetáculo, uma live diária.
Eu me sinto incomodado com essa lógica da “entrega de coisinhas”: pequenas obras, remendos festivos, embalados em vídeos bem produzidos. As cidades viraram cenários, não projetos de futuro. Os gestores se transformaram em atores e influenciadores de si mesmos, esquecendo que o ciclo virtuoso da governança exige entrega real, não apenas narrativa.
O Silêncio que Me Dói
O que mais me angustia é perceber que, enquanto o marketing político se aperfeiçoa, a modernização real fica parada. Eu sei que desenvolvimento não nasce de improviso: precisa de engenharia, de visão, de coragem para pensar além do calendário eleitoral.
Mas o que sobra para mim, cidadão, quando desligo a câmera e o filtro do Instagram sai de cena, são estruturas frágeis, que não conversam com os desafios tecnológicos e logísticos do século XXI. É a política do “parecer” em vez do “ser”.
A Resistência que Eu Carrego
Maria Ortiz resistiu contra invasores com o que tinha à mão. Eu sinto que a minha resistência hoje, como jornalista e cidadão, é contra a mediocridade administrativa. É contra essa maquiagem que tenta me convencer de que progresso é sinônimo de postagem.
Jornalista Lauro Nunes
Eu não quero voltar ao passado, mas quero resgatar aquele espírito de 1924: a capacidade de projetar obras que durem cem anos, que sejam motivo de orgulho para quem vier depois de mim. Não aceito que o futuro da minha cidade e do meu Estado se resuma a um post perdido em um servidor de rede social.
