VITÓRIA, ES – O Deputado Estadual Lucas Polese (PL) protocolou na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ALES) um requerimento para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar a empresa privada Apex Partners e o chamado “Master Capixaba”.
O pedido, que consta no sistema oficial da ALES (Protocolo nº 9086837/2026), tem como finalidade apurar supostas irregularidades e outros fatos relacionados ao grupo empresarial. É fundamental esclarecer, para evitar confusão institucional, que a investigação proposta não se refere à Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, conhecida como APEX Brasil, mas sim à empresa privada sediada no Espírito Santo.
A iniciativa ocorre em um momento de intenso debate público e político sobre as atividades da Apex Partners, suas relações institucionais e possíveis conexões com agentes públicos e privados no estado.
A Contradição no Discurso: “Eu não sei de nada”
Apesar da iniciativa de protocolar a CPI, o que dominou a repercussão do pronunciamento de Lucas Polese na tribuna foi a fragilidade da argumentação apresentada pelo próprio autor do pedido — parlamentar que se apresenta como pré-candidato à Câmara Federal pelo PL.
Em diversos momentos de sua fala, Polese defendeu a necessidade da investigação, mas confessou publicamente a ausência de informações completas ou elementos probatórios mínimos que a sustentassem.
Entre as declarações feitas na tribuna da Casa de Leis, registradas em vídeo e áudio, estão as seguintes confissões de despreparo (com os respectivos timestamps do vídeo original):
- (Por volta de 01:12 do vídeo): “Eu não sei se seria obrigação do Estado.”
- (Por volta de 01:25 do vídeo): “Eu não sei de nada, mas aqui, eu acho que tinha que ter uma CPI aí.”
- (Por volta de 02:05 do vídeo): “Eu não tenho informação.”
A assessoria jurídica consultada pela reportagem aponta que tais declarações colocam em xeque a fundamentação política e a justa causa do requerimento. Pela legislação brasileira, uma CPI exige, para sua instauração, a indicação de fato determinado, objeto definido e delimitação do período de investigação. O reconhecimento, pelo próprio proponente, de que “não sabe de nada” e “não tem informação” pode caracterizar um pedido temerário, sem a mínima diligência exigida de um parlamentar.
A avaliação formal da viabilidade do requerimento dependerá, portanto, de sua tramitação, da análise da Presidência da ALES e do cumprimento dos requisitos constitucionais e regimentais.
Postura Agressiva e “Burro da Roça”: O Debate sobre Decoro
O pronunciamento de Polese também foi marcado por um comportamento que deslocou o foco do conteúdo da CPI para a sua conduta na tribuna. Testemunhas e o registro audiovisual mostram um tom de voz elevado, gestos expansivos e forte carga emocional.
Em um momento de exaltação, com os dedos apontados para os próprios ouvidos, o deputado exclamou: “Ouçam!”.
Logo em seguida, Polese utilizou expressões autodepreciativas, afirmando: “Eu sou burro, eu sou idiota”, associando explicitamente essa autodesqualificação à sua própria origem rural.
Embora as falas devam ser avaliadas no contexto integral do discurso, as associações feitas pelo parlamentar provocaram forte reação negativa. Especialistas e observadores políticos criticam a postura por associar a origem rural e a menor escolaridade a expressões depreciativas, levantando um debate necessário sobre preconceito social e a responsabilidade e o decoro exigidos de um discurso parlamentar.
A questão que se impõe ao debate público é se o deputado, que se apresenta como o “melhor” quadro do PL para o Congresso Nacional, apresenta o equilíbrio e o método necessários para exercer uma função de tamanha responsabilidade institucional.
Histórico de Controvérsias: O Caso do Século Diário
A conduta na tribuna da ALES não é um fato isolado na trajetória do Deputado Lucas Polese. O parlamentar possui um histórico de atritos com instituições e servidores públicos, revelando um padrão de comportamento que tem sido questionado.
Recentemente, o portal Século Diário denunciou um grave episódio envolvendo o deputado. Segundo a reportagem, Lucas Polese realizou uma “visita técnica” não autorizada à Escola Estadual Arnulpho Mattos, em Vitória. Na ocasião, ele teria adentrado na sala dos professores, interrompido o trabalho pedagógico e coagido servidores sobre a presença de livros.
A ação foi repudiada por entidades de classe. O Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica no Espírito Santo (Sinasefe Ifes) repudiou a exposição de um professor em conteúdo publicado pelo deputado.
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Espírito Santo (Sindiupes) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES) classificaram o episódio como um “atentado à integridade dos profissionais e ao ambiente democrático”, caracterizando interferência indevida na autonomia escolar.
Em Suma:
Enquanto tenta pautar a agenda política com o pedido de CPI da Apex Partners, o Deputado Lucas Polese vê sua imagem e sua competência técnica confrontadas, não por opositores políticos, mas por suas próprias palavras registradas em ata, pela forma como conduziu seu discurso na tribuna e por um histórico de condutas que desrespeitam o ambiente democrático.
O Jornal o Centro está em processo de solicitação de direito de resposta a Lucas Polese, ao Partido Liberal (PL), à Apex Partners e demais citados nos fatos narrados. Acompanharemos o andamento do requerimento e os desdobramentos jurídicos deste caso.

