O primeiro turno capixaba deixou Lorenzo Pazolini (Republicanos) com 1.048.633 votos, ou 49,65% dos válidos. Ricardo Ferraço (MDB) ficou com 719.397, ou 34,06%. A distância é de 15,6 pontos, e Pazolini parou a apenas 0,35 ponto de encerrar a disputa. Na minha leitura, dois erros políticos ajudam a explicar por que a virada ficou mais difícil.
Erro 1: Casagrande se afastou da esquerda, e Ferraço pagou o preço
Parte do eleitorado de esquerda via em Renato Casagrande (PSB) a segunda opção natural para o Senado, o voto que acompanhava Fabiano Contarato (PT). Na minha avaliação, Casagrande percebeu que o campo petista não estava performando e se afastou para proteger a própria eleição. Para ele, funcionou: terminou em primeiro, com 24,70%.
O custo, porém, recaiu sobre o grupo de Ferraço. Esse gesto esfriou a simpatia de quem se sentiu deixado para trás, e os 323.483 votos de Helder Salomão (15,32%), que nunca foram automáticos, ficaram mais distantes. Ferraço e seus aliados não poderão negociar do alto. Terão de descer do pedestal e procurar uma esquerda que foi deixada falando sozinha, com respeito e algo concreto a oferecer. Apoio frio não carrega voto até a urna.
Erro 2: o PT confundiu dinheiro com política
O segundo erro é do PT, e considero-o o mais profundo. Com um grande volume de recursos do fundo eleitoral e confiança de sobra, o partido colheu resultados ruins: Helder ficou em terceiro lugar no governo, e Contarato, com 12,94%, não chegou ao Senado. Política não é negócio nem comércio. Dinheiro compra estrutura e propaganda, mas não substitui mobilização: rua, formação de lideranças, células fortalecidas mesmo onde a votação é de 200 ou 300 votos.
O Partido Verde é, para mim, o retrato desse abandono, e o problema começa antes da urna. Segundo o painel do TRE, o partido lançou apenas cinco candidaturas: dois a deputado federal e três a deputado estadual. Os dois federais, Jack Lopes e Durval Cortes, tiveram 194 e 167 votos, e ambos ficaram como suplentes. Entre os três candidatos a estadual, o mais votado somou 1.620 votos, mas esses votos foram anulados sub judice e ele consta como não eleito. Os outros dois tiveram 250 e 88 votos, também como suplentes. No total, são 2.319 votos, dos quais 1.620, cerca de 70%, estão sob contestação judicial. Sem eles, restam 699 votos para quatro candidaturas.
Esses números revelam um erro de estratégia, e a responsabilidade principal é do PT, que conduziu a aliança e concentrou o esforço no seu núcleo endurecido, deixando o resto do estado de fora. A crítica ao PV é outra: o partido concordou com isso. Os 29 diretórios municipais do PV não lançaram candidatura estadual, e os principais nomes a federal, entre eles a candidata mulher do partido, tiveram apenas duas aparições na televisão. Lançar só dois federais e três estaduais é um erro administrativo de quem não formou lideranças locais nem deu visibilidade a quem tinha.
Falo com a vivência de quem acompanha o partido por dentro. O PV tem 12 vereadores no estado e, pelo que vi, nenhum deles trabalhou pelo partido nesta eleição. Todos atuaram nas prefeituras onde exercem o mandato, para os prefeitos ou para os partidos dos prefeitos, ou seja, em outras bases. Quem passou vergonha na urna foram os candidatos que lideraram a chapa para dar visibilidade ao partido e foram deixados para morrer. Quem cuida só do núcleo endurecido e despreza a base descobre, na hora da urna, que a base era o chão.
Os votos que ninguém conquistou
Há um dado que atravessa os dois erros. Dos 2.987.584 eleitores aptos, 638.972 (21,39%) se abstiveram, 110.040 votaram em branco e 126.401 anularam. São mais de 875 mil pessoas sem escolha válida, mais do que todo o eleitorado de Ferraço. Esse contingente só se move com presença, proposta e mobilização.

Em suma:
Declaração de transparência: o autor deste artigo é secretário de comunicação do PV/SERRA-ES. As avaliações aqui expressas são opinião do autor.
Pazolini entra como favorito, e negar isso seria ignorar a matemática. Mas o favoritismo dele também se alimenta da incapacidade dos adversários de se mobilizar e se reconciliar. Ferraço precisa reconhecer o desgaste com a esquerda e reconstruir a ponte com humildade. O PT precisa aprender que dinheiro não é voto, e o PV, que partido que concorda em deixar suas células morrerem não tem o que mobilizar quando mais precisa.

