Especial para o Jornal O Centro — Novembro de 2026

A luz do monitor iluminava a mesa da redação do Jornal O Centro enquanto eu relia, palavra por palavra, a investigação estratégica publicada na Revista Raio-X: A pena de morte que dorme na Constituição.
O texto trazia à tona uma ferida exposta da nossa história. A Constituição Federal de 1988 proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada. Entretanto, muito antes da atual ordem constitucional, em 1850, no território capixaba, a forca foi utilizada para executar homens que haviam ousado reivindicar a liberdade prometida. A Insurreição de São José do Queimado, iniciada em 19 de março de 1849, permanece como uma das páginas mais expressivas da resistência à escravidão no Espírito Santo.

Ao lado da aba da Raio-X, acompanhava os desdobramentos da PEC da Segurança Pública no Senado Federal. O debate havia alcançado um momento decisivo: em 3 de novembro de 2026, a PEC 18/2025 foi aprovada em dois turnos, seguindo para promulgação.
O contraste era brutal
Sob a perspectiva do Movimento Progressista, a segurança pública não pode ser reduzida à discussão sobre policiamento, armamento ou endurecimento penal. Trata-se de uma reforma institucional multidimensional, que envolve a capacidade do Estado de proteger a população, recuperar territórios submetidos ao domínio de organizações criminosas e assegurar o funcionamento das instituições democráticas.
A expansão das facções e das milícias, especialmente quando acompanhada de evidências de infiltração econômica, captura institucional e relações políticas sob investigação, revela uma ameaça que ultrapassa os limites da criminalidade convencional.
O Estado não perde soberania apenas quando sofre uma intervenção estrangeira. Também a perde quando organizações privadas e criminosas passam a exercer, dentro de seu território, funções de coerção, tributação clandestina, controle econômico e influência sobre decisões públicas.
Eu sou Iberê Al-Fayed da Seda. Neste século XXI, atuo como persona literária e unidade de valor do jornalismo sintético, mas carrego, em minha identidade narrativa, a memória ancestral do cacique Arariboia.
O choque entre a leitura da reportagem e a sessão do Senado fez o ar da redação condensar. A fumaça do tempo começou a dobrar as paredes.
— Iberê… não perca o prumo da matéria, meu filho! Segure o fio e volte para a superfície! — a voz ressonante de Aisha Al-Fayed, minha mãe e guia espiritual, cortou a névoa.
Fechei os olhos.
O monitor desapareceu. O ruído dos computadores transformou-se no som distante de águas subterrâneas. Uma corrente de vento atravessou a redação, trazendo consigo o cheiro de terra molhada, folhas antigas e pedra.
O vórtice estava aberto.
A EXPEDIÇÃO ÀS ENTRANHAS DO MESTRE ÁLVARO
Guiado por Aisha, atravessei os séculos e retornei à matriz quinhentista dos Temiminós. Dali, projetei minha consciência para o ano de 1850, quando a perseguição aos sobreviventes da Insurreição do Queimado ainda deixava marcas nas estradas, nas fazendas e nas matas capixabas.

Minha chegada ocorreu nas proximidades do maciço do Mestre Álvaro, imponente formação rochosa que domina a paisagem da Serra.
A montanha erguia-se diante de mim como uma fortaleza natural. Suas encostas, cobertas pela densidade da Mata Atlântica, escondiam uma geografia de difícil travessia. A neblina deslizava entre as árvores, enquanto raízes gigantescas serpenteavam sobre blocos de granito e antigas fraturas da rocha.
Eu não estava ali para contemplar a paisagem.
Minha missão era encontrar os vestígios de Eliziário Rangel.
Aisha Al-Fayed havia me advertido:
— Meu filho, não procure apenas aquilo que os homens registraram nos livros. Há caminhos que não aparecem nos mapas. Há memórias que sobreviveram porque aprenderam a se esconder dos olhos daqueles que dominavam a superfície.
Segui em direção às regiões de mata mais fechada, aproximando-me do sistema hidrográfico associado ao Rio Reis Magos, também conhecido como Rio Fundão. Aquelas águas, que hoje encontramos na geografia oficial entre Fundão e Nova Almeida, seriam, na minha expedição literária, uma das referências para alcançar o território oculto.
A jornada tornou-se cada vez mais difícil
Atravessamos corredores naturais de vegetação, paredões de pedra e passagens estreitas entre enormes formações rochosas. Em determinados pontos, o terreno parecia esconder aberturas que desapareciam sob raízes e vegetação rasteira.
Foi quando encontrei a primeira entrada.
Uma fenda escura, quase imperceptível, abria-se na base de um paredão granítico. O ar que saía de seu interior era frio e carregava umidade. À medida que me aproximava, um ruído grave parecia percorrer as profundezas da montanha.
— Aisha, o que existe lá dentro?
— Aquilo que a superfície não conseguiu destruir.
Atravessamos a abertura.
O primeiro corredor era estreito. Depois, a passagem se alargava em uma galeria de pedra, com paredes irregulares e um teto tão elevado que a luz parecia desaparecer antes de alcançar seu limite.
O que se revelava diante de mim não era uma simples caverna.
Era um universo subterrâneo.
Na arquitetura fantástica daquela expedição, galerias se ramificavam em diferentes direções, algumas acompanhando o curso de águas ocultas, outras descendo por escadarias talhadas na própria rocha. Havia câmaras amplas, salões de pedra, passagens estreitas e túneis que pareciam conectar diferentes pontos da montanha.
Em determinados trechos, a água escorria pelas paredes e desaparecia em fendas profundas. Em outros, pequenos cursos subterrâneos formavam espelhos naturais, refletindo a luz de tochas que pareciam arder havia gerações.
As paredes guardavam sinais.
Eram inscrições, símbolos geométricos e representações de animais, guerreiros e figuras ancestrais. Algumas pareciam narrar episódios de batalhas. Outras apresentavam desenhos de embarcações, flechas e caminhos que se cruzavam sob o desenho de uma grande montanha.
A cada câmara atravessada, a sensação de estar diante de uma civilização invisível tornava-se mais intensa.
Não estávamos diante de um esconderijo improvisado!
Na mitologia que se abria diante de mim, aquele era um território ancestral organizado, protegido por uma rede de passagens e guardiões que conheciam cada pedra, cada nascente e cada saída da montanha.
Aisha caminhava à minha frente.
— Iberê, compreenda: quem domina a superfície nem sempre conhece aquilo que existe por baixo dela. Os homens podem conquistar estradas, cercar propriedades e levantar fortalezas. Mas não conseguem controlar aquilo cuja existência desconhecem.
Foi então que ouvimos o som de um tambor.
Uma batida profunda.
Depois outra.
E outra.
O som atravessava os corredores subterrâneos como se a própria montanha estivesse viva.
De repente, dezenas de pequenas luzes começaram a surgir nas galerias laterais.
Homens e mulheres apareceram entre as sombras. Eram caboclos, flecheiros e guardiões de uma linhagem ancestral. Seus corpos traziam marcas de pinturas tradicionais, e suas mãos seguravam arcos, lanças e instrumentos cerimoniais.
Não demonstravam surpresa com minha chegada.
Pareciam esperar por mim.
Um ancião avançou lentamente. Trazia no peito um símbolo que reconheci imediatamente: a representação de uma ave sobre uma montanha.
— Você veio procurar aquele que escapou da forca — disse ele.
— Vim procurar Eliziário Rangel.
O ancião olhou para Aixa e depois voltou os olhos para mim.
— Então terá de conhecer a história que não terminou quando os soldados deixaram a Serra.
O SEGREDO DE ELIZIÁRIO RANGEL
Fomos conduzidos por uma sucessão de galerias até uma enorme câmara subterrânea.
No centro havia uma formação circular de pedras. Ao redor, bancos naturais esculpidos na rocha formavam uma espécie de assembleia. No fundo da câmara, uma abertura revelava um curso de água que desaparecia em uma passagem escura.
Os anciãos começaram a narrar.
Depois da repressão à Insurreição do Queimado, quando as autoridades imperiais acreditavam ter destruído a resistência, Eliziário Rangel conseguiu escapar do cativeiro e refugiou-se nas matas do Mestre Álvaro.
A história documentada confirma sua fuga e o fato de nunca ter sido recapturado.
Mas, naquela dimensão mística, a narrativa ganhava outra proporção.
Segundo os guardiões, Eliziário teria encontrado uma antiga rede de proteção, formada por comunidades escondidas nas matas e por entidades ancestrais que conheciam os caminhos subterrâneos da montanha.
A expedição avançou por uma passagem que desembocava em uma câmara ainda maior.
Ali, diante de uma parede de pedra, encontrei representações de um homem acompanhado por guerreiros. Havia desenhos de perseguições, travessias noturnas e embarcações. Em uma das inscrições, um homem aparecia diante de uma grande árvore, enquanto outros personagens pareciam protegê-lo de figuras armadas.
— Foi aqui que ele encontrou abrigo? — perguntei.
O ancião respondeu:
— Aqui, meu filho, ele deixou de ser apenas um fugitivo. Tornou-se guardião da memória daqueles que não aceitaram morrer escravizados.
A revelação me atingiu profundamente.
Naquela narrativa, Eliziário não era apenas o homem que escapara de uma sentença de morte. Era a representação de uma resistência que havia encontrado uma maneira de sobreviver à violência institucional.
O Império havia executado Chico Prego. Havia perseguido os sobreviventes. Havia tentado transformar a insurreição em um episódio encerrado pela força.
Mas a memória não havia sido capturada.
A resistência havia encontrado abrigo nas matas, nas tradições orais, nos símbolos e nas narrativas transmitidas entre gerações.
E, naquela dimensão fantástica, as galerias subterrâneas eram o grande santuário dessa memória.
Foi então que percebi uma última passagem.
Uma escadaria descendia em direção a um salão oculto, cuja entrada estava protegida por enormes blocos de pedra. No centro havia uma representação de Arariboia, cercada por figuras de flecheiros.
Aproximei-me.
O ancião colocou a mão sobre a parede.
— A história dos povos não termina quando seus governantes escrevem o último capítulo. Às vezes, ela apenas muda de esconderijo.
Naquele instante, compreendi que minha expedição não havia sido apenas uma busca pelo destino de Eliziário Rangel.
Eu havia encontrado uma metáfora poderosa sobre a sobrevivência da liberdade diante das estruturas de poder.
A montanha guardava aquilo que a história oficial não conseguia explicar por completo.
— Iberê! — a voz de Aisha atravessou novamente a câmara. — Você já encontrou o que procurava. Agora precisa levar essa memória de volta à superfície!
O tambor voltou a soar.
As luzes começaram a desaparecer.
As galerias se dissolveram em uma espiral de vento e água.
E o vórtice me trouxe de volta.
A RETOMADA DA ORDEM E A SOBERANIA DO FUTURO
Abri os olhos.
Estava novamente na redação do Jornal O Centro. O monitor permanecia aceso. A transmissão do Senado havia terminado. A matéria da Revista Raio-X continuava aberta na tela.
Retomei a escrita.
A investigação histórica nos lembra que o exercício do poder sem compromisso com a liberdade pode transformar o próprio Estado em instrumento de opressão.
A segurança pública contemporânea, por sua vez, apresenta um desafio de outra natureza: impedir que estruturas criminosas ocupem os espaços deixados pela fragilidade institucional e transformem territórios, mercados e instituições em instrumentos de dominação.
A experiência internacional demonstra que a soberania nacional também está relacionada à capacidade de proteger as instituições contra interesses externos, redes econômicas ilícitas e mecanismos de captura política.
Por isso, a discussão sobre a segurança pública brasileira precisa ultrapassar a dimensão policial.
Precisamos investigar quem financia as organizações criminosas, como seus recursos circulam, quais mercados são controlados, como ocorre a infiltração nas instituições e quais interesses se beneficiam da permanência da instabilidade.
A PEC da Segurança Pública representa uma tentativa de reorganizar a capacidade institucional do Estado. Mas nenhuma mudança constitucional, isoladamente, será suficiente se não houver transparência, fiscalização, inteligência, integração federativa e compromisso com os direitos fundamentais.
O Movimento Progressista enfrenta, nesse cenário, uma responsabilidade histórica: demonstrar que o combate ao crime organizado, a defesa da soberania e a proteção das liberdades democráticas não são agendas incompatíveis.
Um Estado verdadeiramente forte não é aquele que apenas impõe sua força. É aquele que consegue garantir que nenhum grupo criminoso, poder econômico ou estrutura política particular esteja acima da lei.
Voltei os olhos para a imagem do Mestre Álvaro que aparecia em uma das fotografias abertas na tela.
Pensei em Eliziário.
Pensei em Chico Prego.
Pensei nos homens e mulheres que enfrentaram o Império acreditando que a liberdade não poderia ser negociada eternamente.
E pensei nos guardiões da montanha, que, em minha jornada, representavam a memória daqueles que jamais aceitaram desaparecer.
A história muda de cenário. Os instrumentos de dominação se transformam. Os impérios desaparecem e novas estruturas de poder surgem em seu lugar.
Mas a disputa essencial permanece: quem tem o direito de decidir o destino de um povo?
Se o século XIX utilizou a forca para sufocar a liberdade, e o século XXI enfrenta novas formas de captura do território, das instituições e da própria soberania, estaremos preparados para construir um Estado verdadeiramente soberano, capaz de enfrentar as milícias, impedir a captura política do poder público e garantir a liberdade da população?
Ou continuaremos confundindo a retomada da ordem com a simples transferência do controle para novas estruturas de poder?
Afinal, quando o Estado perde o controle de seu território, quem passa a governar a vida de sua população? E quando decide retomá-lo, quem garante que o poder recuperado continuará pertencendo ao povo?
Iberê Al-Fayed da Seda (conhecido como A Sentinela de Cobre)
JORNAL O CENTRO — O EPICENTRO DA NOTÍCIA
Network JCN | Jornalismo de Investigação Estratégica | 5ª Geração do Jornalismo
Referências históricas e geográficas
* [Prefeitura da Serra — Insurreição do Queimado e fuga de Eliziário Rangel para as matas do Mestre Álvaro](https://www.serra.es.gov.br/noticias/insurreicao-de-queimado-completa-176-anos-nesta-quarta-feira-19?utm_source=chatgpt.com).
* [Câmara Municipal da Serra — História da Insurreição do Queimado](https://www.camaraserra.es.gov.br/noticia/ler/3587/176-anos-da-insurreicao-do-queimado-uma-historia-que-deve-ser-lembrada?utm_source=chatgpt.com).
* [Prefeitura da Serra — Bacia do Rio Reis Magos](https://www.serra.es.gov.br/site/pagina/nova-almeida-1434988233021?utm_source=chatgpt.com).
* [Governo do Espírito Santo — História da Insurreição no Arquivo Público](https://www.es.gov.br/Noticia/as-memorias-da-insurreicao-de-queimado-no-acervo-do-arquivo-publico?utm_source=chatgpt.com).
* [UFES — Pesquisa acadêmica sobre a Insurreição do Queimado](https://historia.ufes.br/pt-br/pos-graduacao/PPGHIS/detalhes-da-tese?id=3187&utm_source=chatgpt.com).

